Notas e a frequência análise musical científica com base no abstrato e no exato
As notas são infinitas.
Essa afirmação, que à primeira vista pode soar poética ou exagerada,
torna-se rigorosamente verdadeira quando abandonamos a ideia restrita
de nota como símbolo gráfico na pauta e a compreendemos como fenômeno físico:
vibração.
O som é uma oscilação mecânica que se propaga em um meio,
geralmente o ar, sob a forma de ondas de pressão.
Cada som possui uma frequência, medida em hertz,
que indica quantas vibrações ocorrem por segundo.
Se a frequência é contínua por natureza,
então o universo sonoro também o é.
Entre 440 Hz e 441 Hz existe um campo infinito de valores possíveis.
Logo, entre dó e ré há um oceano.
No Ocidente, convencionou-se dividir a oitava em doze partes iguais,
o chamado sistema temperado.
Essa organização permitiu padronização,
modulação livre entre tonalidades e construção harmônica complexa.
A pauta, as claves de sol, fá e dó,
e os acidentes — sustenidos e bemóis — são ferramentas gráficas que traduzem essa escolha cultural.
Contudo, trata-se de um recorte,
uma aproximação funcional do contínuo acústico.
A escrita musical ocidental é,
portanto,
uma cartografia simplificada de um território vastíssimo.
Do ponto de vista científico,
a altura de uma nota não é um nome,
mas um número.
Um lá central corresponde, por convenção,
a 440 Hz, mas nada impede que seja
442 Hz ou 432 Hz.
Aliás, pequenas variações são perceptíveis e alteram a sensação subjetiva de tensão,
brilho ou repouso.
Além disso, fenômenos como batimentos, interferências e harmônicos
revelam que um único som contém múltiplas frequências simultâneas.
Quando uma corda vibra,
ela não produz apenas sua frequência fundamental,
mas uma série harmônica inteira,
estruturando timbre
e identidade sonora.
Assim,
mesmo aquilo que chamamos de “uma nota” já é, em si, plural.
Em diversas tradições orientais,
como na música indiana ou árabe,
a divisão do intervalo
não se limita aos doze semitons.
Utilizam-se microtons, intervalos menores que o semitom ocidental, explorando com refinamento regiões intermediárias da frequência.
O glissando — a passagem contínua entre alturas — evidencia de forma sensorial essa continuidade.
Ao escutar uma melodia que desliza de uma frequência a outra sem degraus rígidos,
percebemos que as fronteiras entre as notas são construções culturais,
não barreiras físicas.
O ouvido humano, embora condicionado por sistemas específicos,
é capaz de reconhecer sutilezas muito além da escala padronizada.
A ciência confirma que o espectro audível humano
varia aproximadamente entre 20 Hz e 20.000 Hz.
Dentro desse intervalo, há uma infinidade de frequências possíveis.
A música, então, é a arte de escolher, organizar e relacionar pontos nesse contínuo.
Cada cultura cria suas próprias redes de significação sonora,
definindo quais frequências serão consideradas estáveis,
tensionais,
sagradas ou profanas.
A teoria musical é, nesse sentido, uma linguagem simbólica aplicada
sobre um campo físico ilimitado.
Artisticamente, pensar as notas como infinitas expande a imaginação.
O compositor deixa de enxergar a escala como uma escada fixa
e passa a percebê-la como um horizonte aberto.
A voz humana, o violino,
o trombone
e instrumentos tradicionais orientais
demonstram que a expressividade reside
justamente na capacidade de transitar entre frequências,
curvar o som,
tensionar o intervalo.
O vibrato,
por exemplo,
é uma oscilação periódica em torno de uma frequência central,
revelando que até a sustentação de uma nota
contém movimento interno.
Portanto,
entre dó e si não há apenas sete letras e cinco acidentes;
há um continuum vibratório que se estende sem fragmentação natural.
As notas que aprendemos são marcos,
convenções úteis
para comunicação
e construção coletiva.
Contudo,
a realidade acústica é fluida,
contínua e infinita.
A música emerge do encontro entre essa infinitude física
e a necessidade humana
de organizar, nomear e sentir.
No cruzamento entre ciência e arte,
descobrimos que cada frequência
é uma possibilidade estética,
e que o silêncio que separa uma nota da outra
é, na verdade,
apenas a pausa de nossa própria categorização.









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