Quem tem filhos e quem não tem

 
 
 
 
Ter filho não é, por si só, um sinal automático de maturidade, 
tampouco uma prova absoluta de responsabilidade. 
Muito menos pode ou deve ser usado como pretexto de autodefesa financeira, 
familiar ou social, como se a simples existência de uma criança 
conferisse ao adulto um selo moral superior. 
 
Ter filhos é, antes de tudo, uma opção, e somente a partir dessa escolha 
surge a verdadeira responsabilidade: 
a responsabilidade na tomada de decisões conscientes, 
constantes e éticas a partir do momento em que o lado paterno 
ou materno assume essa carga genética, emocional e social.
 
Os avós de maneira alguma devem deixar de favorecer
o filho que não teve filho só porque o outro teve.
Isso é errado e pode até ser considerado como um ato
a ser visto de maneira favorável em casos familiares e de sucessão. 
 
A maturidade não nasce com a parentalidade. 
Ela precede a decisão de ter filhos ou, em muitos casos, deveria precedê-la. 
O que define uma pessoa madura não é gerar alguém, 
mas compreender as consequências de suas escolhas 
e agir de maneira responsável diante delas. 
Da mesma forma, responsabilidade não é um título automático 
concedido a quem se torna pai ou mãe, 
mas uma prática diária, 
construída com cuidado, 
comprometimento e consciência.
 
Em nenhum momento pessoas que não têm filhos 
deveriam ser vistas como menos responsáveis 
do que aquelas que têm. 
Essa comparação é injusta, 
rasa e ignora uma série de fatores individuais, sociais e psicológicos. 

Optar por não ter filhos pode ser, inclusive, 
uma decisão extremamente responsável, 
baseada em autoconhecimento, 
planejamento, condições financeiras, 
estabilidade emocional 
ou simplesmente em valores pessoais legítimos. 
 
Também é equivocado usar a condição de pai ou mãe 
como critério de vantagem em processos de contratação 
ou avaliação profissional, como se ter filhos automaticamente tornasse alguém 
mais comprometido ou merecedor de “pontos a mais”. 
 
Essa lógica reforça distorções perigosas, 
pois transforma escolhas pessoais em critérios de mérito, 
o que não é justo nem funcional. 
Competência profissional, ética, capacidade técnica 
e responsabilidade não estão vinculadas ao estado parental de ninguém.

Ter filhos é uma causa e consequência de atos 
e decisões assumidas por quem escolheu esse caminho. 
As missões geradas pelo pai ou pela mãe 
não podem ser usadas como argumento 
para desmerecer quem fez uma escolha diferente. 
 
Pelo contrário, é necessário reconhecer que cada trajetória 
pode carregar desafios próprios 
e que nenhuma é superior à outra 
apenas por envolver ou não a parentalidade. 
 
 
Desmerecer quem optou por não ter filhos 
é ignorar que essa decisão pode ser ainda mais eloquente, 
consciente e madura do que a de quem teve um filho sem planejamento, 
estrutura ou real disposição para cuidar. 
 
A sociedade, muitas vezes, confunde geração com cuidado, 
quantidade com qualidade e biologia com afeto. 
 
Existem muitos fatores que vêm desviando o mérito correto 
quando o assunto é família. 
 
Esse conceito precisa ser revisto com seriedade e sensibilidade. 
Família não é apenas gerar, 
reproduzir ou compartilhar genética. 
 
Família é saber cuidar da maneira correta, 
oferecer suporte emocional, 
respeito, educação e presença. 
 
Família é compromisso, e não apenas sangue. 
 
No fim, responsabilidade não está em ter ou não ter filhos, 
mas em assumir plenamente as escolhas e não usar de pretexto
para pegar o lugar ou a herança de quem se preparou mais do que 
quem simplesmente teve filhos. 

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